quinta-feira, 13 de março de 2014

Antes de dormir

- me diz se é possível deitar e dormir com esse barulho que atordoa mais o coração do que os ouvidos e faz tingir de cinza um tanto de esperança rosa que havia crescido aqui meio ao caos meio ao caldo meio ao nulo. O tagarelar dos sentimentos alheios nunca fez por bem levar consigo que parece que sufoca, e sufoca, e vai sufocando até resignar uma dor que toma primeiro os braços depois o fígado depois a alma, até chegar aos fios de cabelo que são sempre os últimos a saber das coisas. De tudo que me resta nessa noite estranha de pudores desgarrados coloquei o suor e a emoção em cima da mesa, depositando as vontades no sofá e chamando o drink de anis pra dançar um bolero depois um blues depois um samba. Fiquei presa, não lembro quando, num vociferar de cala-bocas que, se não fosse o eco, poderia até lhe contar de onde vem ao certo mas no momento parece vir de todos os lugares e não-lugares da fricção dessa música que não sei se um bolero se um blues se um samba mas desconfio que um pop qualquer da britney spears. Escova de dente sempre me assola porque ela fica lá e eu fico aqui da porta a encarando por mais de dez minutos ou segundos ou horas e quando chego a tomar coragem para levantar e roçá-la em tantos dentes parece que o sono adivinha e me toma de uma forma inevitável, algemando meus pés à cama e me implorando pra ficar. Desde os 12 anos não lido bem com súplicas, não sei desvencilhar minha mão da culpa do dizer não ou até talvez, então eu acabo sucumbindo.

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