domingo, 29 de junho de 2014

dez quadras ou mais de vinte e três

O coração, eu acho, nunca quieta - eu disse abrindo a porta.
Nem sei se ouviu direito, pois quando terminei no ponto ele já ia me dizendo sobre tudo o que não queria, incluindo a mim. E eu apenas acenava com o rosto como quem concorda - mesmo sendo um sim completamente raso. Eu devia aceitar, segundo ele, que nunca seriamos o que eu queria, porque ele sabia muito bem o que eu queria - inclusive bem melhor do que eu. Depois de profetizar futuros que eu quis, disse ainda que não queria mágoas, que esse tempo todo que esteve por perto foi exatamente para evitar as mágoas, as minhas mágoas, porque ele sabia que não me fariam bem, que me sufocariam. Tudo era por mim, porque eu era realmente especial, como poucas, mas que já não dava mais para permanecer em metade, que eu não merecia, aliás, nunca mereci. Chegou a mencionar um ou dois dias em que quase me iludiu, porém que, por gostar demais da nossa empatia, optou pela sinceridade de não dizer nada e me deixar pensando o que quisesse, mesmo que na aflição do silêncio. Depois disso, ainda escutei muito, creio que meia hora, mas ouvi pouco, apreendi menos ainda.
Enfim, desistiu, acho que pelo branco dos meus olhos permanecer branco ou por eu não esboçar nenhuma pista sobre o que concluiria daquilo tudo. Antes de sair pela porta que ficara entreaberta desde o momento em que chegou, me deu um abraço, um beijo na testa e disse que foi bom ser o primeiro, mas que não seria o último, a dilacerar corpo, mente e alma pelo lado de cá. O lirismo foi tanto que eu sorri, talvez abismada porém ainda confortável, retribui o abraço e disse para ele se cuidar durante as dez quadras que teria que atravessar para alcançar sua casa. Saiu de costas para a porta, como quem anda de ré para não ter que olhar para trás, fez um último gesto de adeus com as mãos que não continha nenhum bocado de arrependimento. Segui olhando até ele virar o corredor, encostei a porta e cogitei chorar e espernear, procedimento padrão. Olhei o relógio e já eram mais de vinte e três, eu pegava às sete no dia seguinte, o que deixava tudo tarde demais para sofrer.


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