sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Toda casa tem um quarto de saudade

Determinei, em mim, um nível de saudade possível. Não que seja ruim sentir saudade, mas é necessário vivê-la sempre com cuidado. Fechei as portas de cada cômodo - por aqui, até a cozinha possui portas, você comentou. Certifiquei-me de que entre os vãos não havia nada além do simples vácuo de ser sozinha e inteira ao mesmo tempo.
Todos se foram a tempo de me deixar com as sobras de ontem - álcool, comida em excesso e amor pelos cantos. Há muitas explicações a serem dadas, mas não há urgência sobre elas, o que as deixa ainda mais remotas e intangíveis. Morbidamente, deixo cair algumas cinzas no tapete e me parece tão peculiar não conseguir enxergá-las que penso em instalações artísticas soltas pela casa - por que não?
Se tudo se fizesse em seu límpido e puro lugar, não estaria constituída agora a imensa leveza de conjecturar voltar no tempo para estabelecer o que poderia ou não ser dito antes de ser. As possibilidades eram extremas e passou a valer a pena esquecê-las para me mover entre um sofá e outro desta sala que detém o poder de me segurar pelo menos até o meio-dia.
Eu só não queria ter as lembranças que tenho agora, pois chorar vai tornar tudo bastante piegas, principalmente para findar um texto tão relâmpago e tão terrível. Um quarto ou dois é o que me resta de saudade e do Whisky que você deixou para trás depois de se despedir.


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