sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

De quando você demorou a chegar (e não veio)

Esperava e espero pouco mais de menos desta vida. Estalei os cotovelos naquela noite de julho, eu já tinha 14 páginas, só faltavam mais umas 100 e já estaria ótimo. Parecia que o limite se encontrava logo ali, à beira de mim mesma, mas eu não alcançava e definhava ao persistir no caminho mais doloroso que já havia trilhado. Hoje, vejo que 63,5% era drama emocional, meu cérebro contra meu cérebro, autossabotagem, dessas coisas que a gente faz quando quer remeter a culpa para alguém que não seja aquela pessoa que está sentada há 7 horas numa mesma cadeira e só foi capaz de terminar a introdução - que, no caso, era eu mesma. A minha estratégia era passar a bola para sua ausência, e eu chorei por horas dizendo que não era capaz antes que você aparecesse para me salvar o dia e o título também. Quanta besteira! Claro que eu era capaz, mas queria condicionar todas as más escolhas e até um possível fracasso ao fato de você não estar e até não querer estar - o que, de fato, sempre foi um direito e uma escolha terrível sua.
Não digo que você não foi cruel, pois foi, sim, apesar de agora achar que cruel sou eu, que sumo e não dou notícias e lhe arranco da minha vida sem hesitar. Eu devo ser a bruxa, pois há uma necessidade de haver vilãs nesse conto de fadas reverso que criamos e cultivamos, tudo no -amos porque, apesar de você querer tirar o seu da reta, somos ambos hiper responsáveis por todo este imbróglio que se formou aqui, aí e em alguns outros lugares que, hoje, já não consigo ir porque me remetem, automaticamente, à sua imagem e à sua in-presença. Acho mesmo que você também foi covarde, mas se lhe digo isso qualquer dia diretamente é capaz de me cortar a língua com o olhar, o que não quero, pois nem quero mais olhares, por prudência e, principalmente, por muita prudência mesmo.
Pensava conhecer bem meus labirintos emocionais, mas se tem uma coisa que você me ensinou é que eu não me conheço em nada mesmo - e continuo sem conseguir isso por enquanto, e nem fazendo questão de conseguir. Só queria esclarecer que nunca lhe dei o direito de me julgar passional, muito menos enquanto eu, tão vulnerável, me abraçava aos últimos motivos para a esperança de haver algo menos líquido que nos estreitasse. Mais uma vez: cruel. Talvez, seja esse o adjetivo perfeito para lhe posicionar nessa linha do tempo bagunçadérrima que se tornou esses tantos anos de mais distância do que “oi, cheguei, quero lhe ver!”.
E ainda bem que não nos encontramos, não é mesmo? Porque, se fosse olho por olho e dente por dente, já não haveria sobrado muito do seu ombro em cada esbarrar pelas ruas da vida. Ainda bem que não nos vemos depois de eu lhe dizer “ei, não quero mais você por aqui!” e, logo em seguida, me arrepender, voltar atrás. Ainda bem que demorou para ser e nem foi mesmo, pois não seríamos passíveis.
Um no outro nunca existiu, não me venha com concordâncias e lirismos para provar o do contrário. Quando chove na cidade, lembro de você, daquela vez que caiu o céu e você simplesmente me disse “foi mal, meu pai não quer liberar o carro e daqui a pouco já preciso trabalhar”. Ok, ok! Eu sempre fui muito compreensiva, meio louca passional, mas compreensiva, passiva, permissiva.
- Por fim, a culpa é minha, a sorte é sua, e a vida está aí para provar que o que demora a passar acaba revertido em textão estranho meio que direcionado para a parede ou para algum leitor perdido neste mundão de muita amargura, mas também muita felicidade silenciada. Porra nenhuma!

Um comentário:

Elyrrandro Habys Manente disse...

Muito bom! Você me fez lembrar de uma frase que li há algum tempo (que já não me recordo de quem era, hahahaha!), que dizia algo mais ou menos assim "quando se esta sofrendo, escreva ou conte a alguém, crie algo com isso que não ira doer tanto", mas sinceramente, como você disse, porra nenhuma! mesmo assim continuo puto. hahahahah!