quarta-feira, 27 de junho de 2012

Sobre a angústia.

Tinha tudo para ser um bom dia. Só que só foi. Ela: descalça, estirada na cama desde as cinco horas da manhã, horário em que chegara em casa da festa de arromba que de arromba mesmo só lhe arrombara o coração e o ouvido. Já eram sete horas da matina, e nada. Nada além de um olhar fixo que mesclava entre o teto branco e a parede lilás. Fixação, poucos olhos para muita visão.
Permanecia estática. Para não dizer que totalmente estática, por vezes enrolava uns cachos no cabelo oleoso e sujo da tal noite de arromba. Cheirava forte a cigarros, ela não gostava de cigarros, mas o que se faz num mundo em que o mundo inteiro fuma cigarros, de Malboro light à Lucky Strike vermelho? Já eram dez horas do quase meio-dia, já se passara cinco horas desde que ela se atirou na cama para tentar dormir e descansar da noite caluniosamente de arromba. Não conseguia pregar os olhos, os pensamentos teimavam em mantê-los abertos, abertíssimos. Quem nunca passara por isso? - se perguntava, com medo da resposta imaginária que viria dela mesma.
Descansar de um cansaço enorme, uma fadiga, uma preguiça dessa vida inteira que passava agora pelo olhar ainda fixo, ainda firme num mesmo ponto há longos e exatos treze minutos. Que grande ironia essa vida! Hoje que ela poderia dormir até qualquer hora, sendo domingo, ela não conseguia nem, por mais que tentasse, cerrar os olhos, nem por segundos breves, nem milésimos, centésimos deles. A vida não passa mesmo disso: uma grande e enfadonha ironia.
Queria desistir de tudo: dos estudos, do trabalho, de morar naquele bairro. Mas o desistir se transformava em resistir cada dia em que ela levantava às cinco e meia da manhã para tomar café e ônibus lotado. Naquele momento, ali na cama, completamente entregue ao sono sem dormir, pensara fortemente em desistir, estava certa disso. Tão certa que virou de lado e abraçou forte o travesseiro, como quem pede socorro em silêncio para alguém que nunca vem, nunca viria mesmo.
Estava certa demais para parecer errada, justo agora. Decidiu também por levantar, passar um café e as horas, talvez junto, no mesmo coador. Adoçar os dois, juntos, adicionar leite morno e tomar de uma só vez, como uma dose forte de uísque sem gelo, no mais legítimo estilo cowboy. Pensou em tudo isso e nada, nada foi feito. Nada é mentira, pois fez um leve movimento com os braços, puxando o lençol para cima até conseguir cobrir os pés. Parece que quando se cobre os pés o medo começa a passar de forma repentina, sua mãe sempre lhe disse, por isso tentou um pouco disso naquela hora. Não que tivesse medo, mas tinha medo de o ter.
Virou de bruços, de bruços era sempre a posição que a fazia dormir mais rápido, dar as costas pro mundo é a maneira mais eficaz de fingir esquecê-lo para si mesma, adormecer em paz é um pouco de esquecer o mundo dentro de si. Nem de bruços, nem assim os olhos fechavam. Ela: mais pregada do que saia de colegial dos tempos passados. Desistiu até de desistir, para ver se aquilo tudo passava, não fosse por isso.
De tudo se tira um tanto, começou, então, a se desfazer das roupas e dos desejos. Talvez mais leve e menos sonho fosse mais fácil, enfim, dormir. Tudo em vão num quarto cheio de apegos e fotos. O problema era deixar para trás as pessoas e as memórias. Por mais que tentasse, não largava o travesseiro e as emoções. Para esvair-se, era preciso mais do que abandonar. Para deixar é preciso deixar de verdade. Mas o que ela queria era fugir de tudo e do agora. Já era meio-dia e uns quebrados. Resolveu dormir antes que a fome apertasse o estômago e as sobras.

2 comentários:

Victoria disse...

Tenho sentido muito isso ultimamente. Seja lá o que aconteceu durante a noite, serviu de inspiração pra um texto lindo e intenso.
Saudade de você.
beijo grande!!

Jéssica Amâncio disse...

me identifiquei com a preguiça dessa vida toda.