segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Padecendo

Das dores que nunca teve, estava ali, entre suas mãos, uma das que mais temia. O pavor ultrapassava qualquer medo do toque. Um horror descomedido que a fazia abafar tudo que queria escapar em vão. Padecendo ia, respirando forte, fundo, tentando se auto-julgar capaz de suportar tudo o que escorria.
Não parecia querer parar, era como um exorcismo por um triz. Um bocado de brevidades que ela guardava em si agora se desmanchando num caminho incerto entre suas mãos e o sofá já antes amarelado.
Por mais que segurasse, aumentava, dilacerando veias e sentimentos hostis, dentre outros vários que permaneciam. De chorar, se cansara. Nenhuma lágrima conseguiria dar vazão àquela vastidão de gotas estranhamente inesgotáveis que perpendiculavam agora já também dos seus cotovelos.
Era um incessar quase que grotesco, que, além de espanto, gerava um alívio sinistramente contagiante que ela ia transmitindo pro sofá velho, pro tapete empoeirado, pros tacos mal encerados.
Tudo se resumia a um corte, nem tão grande nem tão profundo. Um corte que dividia ali o nefasto da leveza. Se não fosse pelo desmaio, sentiria mais.
Acordara no mesmo lugar, na mesma posição. Esforçosamente lembrou que, pr'além das dores possíveis, a solidão era o que mais lhe apunhalava.

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