quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sobre o cotidiano.

Que tudo podia ser, ela sabia. O que ela não sabia era justamente o inverso do que desconfiava desde menina. O mundo não é redondo, o mar não é azul, muito menos o céu. Certezas fugidias, perspectivas um tanto quanto miseráveis. Mas ela prosseguia... Pé ante pé, dedos entrelaçados, gostava de estalá-los assim, como quem acorda pra vida num tic-tac sonolento.
Despertava sempre às 8, porque café da manhã não é refeição que se pule. Para mais, ela ia deixando ser o vento nas costas, como quem tem asas sem ter, como quem ousa dessaber um dessabor imenso. E o tic-tac incesso a atormentava. Como que um grilo falante que farfalha chamando a atenção de todo um formigueiro gigante.
Passava o almoço, mas nunca aquela fome. Dessas fomes estranhas, que corroem o estômago e a alma inteira, como que sugando manchas do céu com aspirador de pó. Parecia firme em seu querer, mas nem tanto. Vacila tanto quanto o rio que se esquece de desviar da pedra e esbarra, perdendo-se.
Tinha muito mais pra ser, e foi sendo. De janta, só tinha a mesa pronta e a comida fresca. Mas nenhuma presença. Permanecia longe, afastada de uma vida inteira que insistia em esperá-la. Vinte e duas horas e cama, nada mais a segura nessa tortuosa jornada insana que é um dia inteiro de viver. Viver complica por demais o trajeto. Dormia e sonhava com o dia em que viver fosse um apêndice simples de um amontoado de capítulos intensos de sentir.

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