terça-feira, 2 de julho de 2013

Sobre o meio

Era capaz de ficar parada na mesma posição por horas, sem nem piscar - pelo menos era o que parecia para quem a observava por alguns instantes. Tentava enxergar o que mais podia haver naquele emaranhado escuro na parede. A cada dia decifrava mais um dos segundos de mistério daquele desenho abstrato.
A verdade é que, quando chegou, ele já estava ali, estático, entre o desenho e o buquê. Mas isso não a constrangeu, tirou os sapatos do mesmo jeito de sempre, desabotoou o sutiã ainda por baixo da blusa, puxou. Depositou seus brincos no criado mudo e calçou os chinelos normais. Tudo igual a sempre, a não ser pela figura dele ali, sem nada fazer e nem se mexer para dizer a que veio. Nem um passo, ou um sorriso, ou um gesto de fuga intentada. Parecia que ele ornava por ali como um gaveteiro ou uma penteadeira antiga.
Se era para fazê-la se comover, fora inútil.
Ela apenas deitou na cama, de cabeça para fora e para baixo, olhando pra figura - a da parede, não a viva - como fazia diariamente. Era um olhar amedrontador, de quem pretende sugar a alma, reter tudo desde a superfície até o íntimo. Fazia-se, ali, uma medusa pelo avesso.
E ele, que permanecera por ali numa exatidão esguia, começava a desmanchar em poros, suor e lágrimas. Parecia começar a entender. Ela não era de pular etapas, seguia protocolos, não surpreendia em nada, não seria agora.

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